Ficção - Uma realidade diferente

Na quarta feira passada saí da realidade conturbada do dia-a-dia e entrei em um mundo alternativo, totalmente a parte do que acontece aqui fora. Entre as milhares de portas, sabe-se lá destinadas a que, havia alguns dormitórios, mobiliados com cores alegres e pertences infantis. Ao ultrapassar a linha que separa o quarto do corredor, me deparei com bonecas de pano, penteadeiras lotadas de maquiagem e guarda-roupas enfeitados com adesivos e penduricalhos que não faziam referência ao hóspede. Tudo era tão belo e aconchegante, como aqueles aposentos ingleses onde há uma lareira acesa esquentando o cômodo, que acabei por esquecer quem habitava aquele santuário colorido e animado.
Era uma senhora, doente e tristonha, dona de uma voz muito baixa e fria, capaz de arrepiar até o último pelo do corpo. Quando a vi, todo o sentimento quente que havia em meu coração foi resfriado e deu lugar a uma pedra, gelada e dura como a face da velhinha a minha frente. Ela me olhou, fez um sinal com a cabeça, me deu um pontapé na bunda, e eu sai. Continuando minha caminhada em busca de informações relevantes a conclusão de minha reportagem, cheguei à ala de psiquiatria e levei um susto. Parecia que de uma hora pra outra eu havia saído do meu país, passado pelo mundo das idosas mal encaradas e entrado no filme de Dan O’Bannon, Os Mortos Vivos. Alguns minutos depois, elas começaram a gritar, tirar as calças, subir em cima das mesas que havia no local e dançar a “macarena”. Cuspiram em meu rosto, mas não era saliva, pois a meleca escarrada pelas mulheres alopradas era gosmenta, verde e fedorenta, como o líquido que sai do lixo, o chorume.
Fiquei com tanto medo que corri, corri igual ao papa-léguas fugindo do coyote, eu parecia um fugitivo sendo perseguido por um cachorro demoníaco prestes e arrancar metade de sua perna. Ao chegar à porta do estabelecimento, que se chamava asilo, as recepcionistas tentaram me agarrar, pois achavam que eu havia roubado algum pertence alheio. Com toda minha agilidade eu as driblei, pulei o portão e corri para o terminal do Cabral, umas duas ruas a frente do local. Na catraca do terminal, senti um mal estar e comecei a vomitar. Mas a água que saia do meu estomago não era branca, nem verde e muito menos uma mistura de vários alimentos mastigados, e sim sangue. Senti que a morte estava vindo em minha direção, eu vi o pânico, aquele do filme, agarrar minha mão e dizer: Eu te amo!
Cheguei a sentir o fogo do inferno queimar minha cabeça. Nesse momento, recordei meu nascimento problemático, o momento exato em que sai do útero de minha mãe e mostrei a todos minha nuca deficiente; lembrei da minha infância cruel, na casa dos meus tios pedófilos que abusavam de minha inocência e trabalhavam para tirar de mim toda a alta estima que um ser precisa ter; e vi minha adolescência promiscua vivida ao redor de sexo, drogas, livros e brigas em bares pobres do subúrbio da cidade.
Chorei, chorei como um bebê, um neném a espera de leite. Acordei, sim, acordei numa clínica chamada Quinta do Sol, especializada em reabilitação de usuários de drogas. E percebi, sim, percebi que minha vida apesar de conturbada e problemática, me proporciona o que muita gente sonha em ter, mas não consegue: uma imaginação fértil.

9 Comments:

Anônimo said...
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Alana said...

Gostei bastante do texto.Imaginção fértil mesmo.Por um momento até que parecia real e me imaginei nos mesmos lugares,muito estranho isso! Vejo um belo futuro pra você!

Gui PR said...

Cara,teu texto tá fera demais!!! Já tinha lido ele uma vez...parabéns msm ow. Sempre q postar algo me avisa,sucesso aí.

Abraço

Ass: Gui PR

Anônimo said...

Gostei muito do conto ou da crônica. Estilo fluente. Português correto. Parabéns !!!

Sergio Dias

Andre Luis said...

Eu ia comentar "que imaginação Fértil" chegando ao final. vi isso escrito. ahhhh... que vida heim... abração.

Ernane said...

Ao ler eu me senti meio perturbado. Esse autor usa um texto bem sinestesico! Uma viagem quase sentida por quem lê, muito boa!

Talita Bridum said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Talita Bridum said...

Talita: Sininho é você????

como conseguiu me reconhecer nesta treva??????

Lucas: "Ao ultrapassar a linha que separa o quarto do corredor, me deparei com bonecas de pano, penteadeiras lotadas de maquiagem e guarda-roupas enfeitados com adesivos e penduricalhos que não faziam referência ao hóspede. Tudo era tão belo e aconchegante, como aqueles aposentos ingleses onde há uma lareira acesa esquentando o cômodo, que acabei por esquecer quem habitava aquele santuário colorido e animado".

Talita: Não se preucupe, você não estava sozinho!!!!

Seu doidinho! suas crônicas são ótimas!

Bjos

Anônimo said...

Estava no aguardo a hipotenusa do Sol librar a menopausa da lua enquanto os testiculos do boi amarelo virambulava a sinergia do aguento pai Phell.
Cara que viagem gostoza fiz com a leitura do seu cronco, senti como se estivesse em Sta Rita no aguardo do quente sol "bater".
sou feliz por ter a ousadia de conhece-lo. Dan Brown contentou com bronze, sol e lua é seu.
sucesso continuo.